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Isaac Barradas

Isaac Barradas

Até onde vais por uma foto?

08.02.22 | Isaac Barradas

Questiono-me frequentemente sobre este tema! Até onde estou disposto a ir para conseguir a fotografia que idealizei?🧐

A verdade é que fazer fotografia de paisagem trás os seus próprios desafios. Desde longas viagens, posições desconfortáveis por trás do tripé, condições climatéricas que nem sempre são favoráveis ao fotógrafo ou pessoas que pura e simplesmente ignoram a nossa presença e se colocam à frente de smartphone em punho, são várias as razões para me questionar sobre qual o meu limite para conseguir a fotografia que idealizei.

Para responder a esta pergunta, tenho de simultaneamente contar-te a história de um sábado de janeiro e responder a uma outra pergunta (que abordei num post anterior):

Qual é o meu motivo para fazer fotografia de paisagem?

A resposta é simples: Felicidade! Sou feliz quando faço fotografia de paisagem.

Esta questão leva a uma outra: O que é a felicidade?

Não te posso dizer o que é para ti a felicidade porque na verdade cada um de nós tem a sua definição. Posso dizer-te que para mim, (de uma forma resumidinha 😅) a felicidade é estar em paz com o que me rodeia. Só assim posso disfrutar do momento e ser realmente feliz.

Neste momento questionas-te (se ainda estiveres a ler) porque é que estou a abordar tudo isto! Eu conto: no último sábado de Janeiro, quando fui fotografar, fui forçado a questionar-me sobre se a fotografia que pretendia fazer valia a pena. Deixa-me contextualizar:

Captura de ecrã 2022-02-08, às 00.21.08.png

Um dos lugares que tinha na minha lista era a Fundação Champallimaud, mais precisamente, a zona que todos podemos visitar "livremente" e da qual existem milhares de fotografias online (basta uma rápida pesquisa no google ou no instagram). Decidi-me então que seria um bom lugar para registar um por do sol simpático em contraste com toda aquela arquitetura única e diferenciadora. O dia estava calmo e o sol encaminhava-se para horizonte, para mais um por do sol de inverno. Como sempre faço, cheguei cedo de forma a poder dar uma volta pelo lugar e procurar a melhor composição. Enquanto fazia esta busca, fui fotografando, como alias faziam as dezenas de pessoas que ali estavam. A única diferença era o equipamento: eles de smartphone, eu de câmara em punho. (tenho de admitr que ando a revisitar estilos e temas diferentes!)

Até aqui, parece apenas mais uma tarde perfeitamente normal na vida de um fotógrafo de paisagem. Mas... (lá está o mas🥲) tudo estava prestes a mudar assim que colocasse o tripé no lugar escolhido! E... Foi exatamente isso que fiz, como aliás é habitual e necessário no meu estilo fotográfico. Escolhi a composição, depois de perceber onde o sol se ia por e montei a câmara no tripé. A minha mochila ficou aberta, no chão, em frente ao tripé para poder aceder à segunda câmara com facilidade.

Onde a coisa começou a mudar foi na abordagem seguinte, feita pelo segurança da empresa de segurança privada encarregue de proteger o espaço. Não haviam passado ainda 10 minutos quando fui aborado, muito educadamente, informando que o local é um espaço privado e que para ali estar tinha de ter uma autorização. Informou-me também que deveria enviar um email a solicitar a dita autorização porque sem ela poderia estar a incorrer em processos judiciais devido aos direitos de imagem do espaço.

Nos segundos seguintes, questionei-me e respondi-me sobre se realmente aquela fotografia valia a pena. Poderia ter questionado o porquê de estar a ser abordado, já que existem uma série de fotografias online do mesmo lugar (que duvido serem autorizadas por email). Poderia até ter apontado para mais uma fotografa que também aproveitava a luz dourada da golden hour e questionado qual era a diferença entre nós ou, eventualemnte, poderia ter substituído a câmara pelo smartphone, já que todas as outras pessoas pareciam poder utiliza-lo sem qualquer tipo de constrangimento.

Não me interpretes mal! Não tenho nada contra o segurança ou a abordagem e compreendo perfeitamente as limitações de fotografar num espaço destes. Em contra partida, tenho bastante contra quem, em 2022, acha que uma câmara é uma intrusão à privacidade e um smartphone é aceitável nas mesmas circunstâncias! Hoje existem smartphones com capacidades de zoom mais amplas do que a minha 17-35mm e com o mesmo nível de detalhe que algumas câmaras dos segmentos de entrada.

Para ser justo, o segurança que me abordou tocou num ponto importante: o da privacidade dos doentes daquele centro oncológico bem como do trabalho de pesquisa ali feito. Este é, sem sombra de dúvida, o único ponto não debatível no seu argumentário. Contudo, não era para nenhum destes dois temas que a minha câmara estava apontada.

O meu objetivo com este post é bstante simples, além de ventilar um pouco as minhas frustrações. Se possível sensibilizar possíveis leitores (nem que seja apenas 1) da imensa estupidez que é este estigma contra o material "profissional". A verdade é que a conversa poderia ter sido diferente se eu tivesse respondido com algum dos pontos de que mencionei antes. Também poderia ter sido diferente se o segurança, que apenas seguia ordens, me tivese pedido para ver o ecrã da minha câmara e tivesse percebido que o nível de detalhe registado a 17mm não é suficiente para captar a face de alguém que caminhe a 10 metros da câmara, quanto mais a 100 metros, por trás de um vidro com reflexos. (Esta abordagem já me aconteceu num outro episódio, com um agente da PSP de Lisboa que teve das atitudes mais louvaveis que já testemunhei. Mas isso fica para outro post 😉).

Em suma, tudo poderia ter sido diferente se eu tivesse respondido ou se o segurança tivesse um pouco mais de empatia e pensamento próprio em vez de seguir "protocolos" generalistas. Ainda assim, eu gosto de chamar a mim a responsabilidade dos meus atos. Por isso, percebendo que a a minha felicidade em fazer fotografia não valia a pena ser desafiada por um bate boca que garantidamente iria arruinar a tarde, arrumei o material e fui para uma outra localização, em busca de um time blending digno de incluir no meu portfólio.

Contudo, porque tento não desperdiçar nenhum disparo, este foi o resultado final, os primeiros momentos da golden hour:

The-Two-Towers.jpg

E a ti, já te conteceu algo similar? Qual a tua opinião nesta "guerra" dos smartphones vs câmaras?